O Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) revelou fortes indícios da existência de um alegado esquema de branqueamento de capitais, exportação ilícita de fundos e fraude fiscal envolvendo agências de viagens e turismo, após identificar a movimentação de 58,2 mil milhões de meticais entre janeiro de 2022 e setembro de 2025. As conclusões constam de um Relatório de Análise Estratégica recentemente divulgado pela instituição, que alerta para vulnerabilidades significativas no sistema financeiro nacional.
Segundo o relatório, as investigações identificaram um padrão de operações financeiras incompatível com a atividade normal das empresas analisadas. O GIFiM verificou que várias agências recebiam elevados montantes em numerário através de depósitos fracionados, que posteriormente eram transferidos para contas bancárias em Moçambique pertencentes a uma organização internacional cuja identidade não foi divulgada. A partir dessas contas, os recursos eram enviados para o exterior, levantando suspeitas de exportação ilícita de capitais e ocultação da verdadeira origem dos fundos.
A análise incidiu sobre dezenas de comunicações de operações suspeitas, milhares de pedidos de informação adicional e dezenas de milhares de transações sujeitas a mecanismos de controlo. Os investigadores apuraram que algumas agências realizavam depósitos em numerário que chegavam a atingir cerca de 24 milhões de meticais por dia, valores considerados incompatíveis com o volume de negócios normalmente registado pelo setor das viagens e turismo.
O relatório identifica 17 agências de viagens localizadas na cidade de Maputo e nas províncias de Nampula e Cabo Delgado que efetuaram transferências para a mesma organização internacional. Em alguns casos, terão sido utilizadas contas bancárias pessoais de trabalhadores e gestores para movimentar recursos antes da sua transferência para as contas das empresas, prática que poderá ter dificultado a identificação da origem dos fundos e a fiscalização por parte das autoridades tributárias. Especialistas em prevenção do branqueamento de capitais explicam que empresas que movimentam grandes volumes de dinheiro em numerário podem tornar-se vulneráveis à infiltração de recursos provenientes de atividades ilícitas quando não existem mecanismos rigorosos de controlo interno e supervisão financeira. O recurso a depósitos fracionados é frequentemente apontado como uma técnica utilizada para reduzir a probabilidade de deteção pelos sistemas de monitorização das instituições financeiras.
O GIFiM refere ainda que algumas das empresas analisadas apresentam características compatíveis com entidades fictícias ou com atividade económica reduzida, apesar de movimentarem valores muito elevados. Estes elementos reforçam as suspeitas de que determinadas estruturas empresariais possam ter sido utilizadas para facilitar operações de branqueamento de capitais, fraude fiscal e exportação ilegal de recursos financeiros. A instituição esclarece, contudo, que a confirmação de eventuais crimes dependerá do resultado das investigações conduzidas pelas autoridades competentes. Perante as conclusões do relatório, o GIFiM recomenda o reforço da monitorização das transações realizadas por empresas do setor das viagens e turismo, a realização de auditorias periódicas, maior intervenção da Autoridade Tributária e a adoção de limites mais rigorosos para operações efetuadas em numerário. O objetivo é reduzir os riscos de utilização do sistema financeiro para fins ilícitos e fortalecer os mecanismos nacionais de prevenção e combate ao branqueamento de capitais.
Analistas económicos consideram que o combate aos fluxos financeiros ilícitos é fundamental para preservar a credibilidade do sistema financeiro moçambicano e reforçar a confiança dos investidores nacionais e estrangeiros. A implementação de mecanismos de fiscalização mais robustos, aliada à cooperação entre instituições financeiras, autoridades judiciais e organismos internacionais, poderá contribuir para reduzir os riscos de criminalidade financeira e fortalecer a integridade do ambiente de negócios em Moçambique.

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